Mestragem & Criação

Você cria… ou só consome?

Victor Troiani19 de abril de 2026
Você cria… ou só consome?

Como inventar

ou o dom de co-criar.

Apesar de disponibilizar um grande catálogo, o centro do que pretendemos passar à frente não é o que reside literalmente nos volumes da Biblioteca Arcana.

A leitura de RPG é parte pequena do que representa o hobby.

O cerne do jogo de interpretação é a mesa: as pessoas que engajam as histórias, conduzem e se permitem conduzir pela narrativa.

Aqui me permito divagar, expondo o que aprendi sobre o mecanismo da invenção.

Sim, todos podem criar, mas o nome mestre não é um mero título de poder, pois o poder por si só não nos credencia.

Mestre é aquele que domina, em níveis de desenvoltura, uma arte. É um título de comparação, ninguém pode ser mestre em um vácuo, você o é em relação a um ofício e em comparação a outros que orbitam a prática.

Existem três pontos que gostaria de tratar sobre essa formação.

Ímpeto criativo: estar disposto a produzir é a essência do bom condutor.

A escrita precisa ser praticada, e a boa escrita vem de leitura, contemplação, estudo, ousadia e humildade.

Não subscrevo à mestragem randômica, guiada muito por dados e pouco por criatividade do usuário: livro aberto, bullet-points e quase nenhum preparo. Esse é o método fast-food que encontramos na maioria das aventuras indie de hoje em dia, assim como na de alguns grandes do nicho OSR, como Shadowdark.

Que sejam felizes os que a ele devem suas viagens fantásticas, mas minha escola é a velha, a que realmente é Old School, e ali não existiam parágrafos de 20 palavras ou informações enxugadas ao ponto da tecnicidade de um prompt.

Uma aventura deve carregar-se da alma de um co-criador. Nos módulos inesquecíveis das décadas passadas cada autor investia seu modo de inventar, claramente deixando um pouco de si entre suas linhas.

Isso requer um trabalho maior, uma densidade imaginativa rica em símbolos, mais estudo e, consequentemente, produz livros maiores, que pedem revisão e testagem mais apuradas. Exige mais tempo.

Me recuso a aceitar a desculpa do tempo. Não há quem não tenha tempo de preparar uma aventura, o que existe é quem não coloque a atividade do RPG em um nível mínimo de prioridade para vencer a inércia e a ele reservar ao menos uma hora, dividida em quantas parcelas quiser, de uma semana.

É mais do que o suficiente para preparar uma bela sessão.

Superado este vício, o da imobilidade, da perda de tempo com o fútil ou da simples escolha de prioridades diferentes da que propomos aqui, entendo que muitos mestres se deparam com um arquivo aberto à sua frente, uma barra vertical piscando, e vontade minguante de prosseguir.

Surgem neste momento algumas sabotagens, a aba de youtube, uma fome ou sede repentina que buscam te remover da cadeira. Estas são as armas do inimigo, o demônio sobre seu ombro, observando e conduzindo-o para a falha e a miséria.

Venha comigo combater o bom combate:

A criação começa na absorção de matéria-prima: já toquei nesse assunto antes, viva uma vida em contato com o mundo exterior, com artes visuais, pessoas reais e cobre-se observar as ruas, os parques, as interações entre as pessoas.

Leia, ninguém saberá escrever a menos que leia. Procure na literatura o que te chama a atenção, seja crime e investigação no ano de 2099 ou dramas românticos nas eras místicas da Grécia. Qualquer leitura narrativa vai te alimentar.

Ouça músicas com boas letras e ritmos que te carreguem por caminhos narrativos, que conduzam suas emoções através da memória, por experiências e pessoas do passado, planos e medos que só você conhece.

Todo esse material, quer saiba ou não, é derramado por seus dedos nas páginas do preparo.

Não copie seu seriado favorito, entenda o que uma cena ou situação dramática simboliza e exponha esse símbolo, de forma sutil apropriando-se de seus significados, e crie suas próprias cenas e situações.

Coloque o que te impressiona da história humana dentro da sua criação.

Reconstrua o Egito, ou os lagos gelados da Alta Escócia. Saiba que retratando o real você não tem a capacidade de ser previsível, porque a própria historiografia é uma narrativa criada, e a geografia não existe nas palavras, mas nos fatos. Assim que você se atrever a traduzir uma cachoeira em linhas, já estará mentindo, e essa mentira, bem trabalhada, será maravilhosa.

Estude aquilo que te interessa, que acende o fogo da alma, e depois ouse expor suas paixões para os leitores, mesmo que o leitor seja apenas você. Existe sim um equilíbrio entre informação e verborragia, toda a arte requer tentativa e erro, o processo precisa começar, e é do exagero que se remove o supérfluo.

Nossa composição preguiçosa e ardilosa tentará impedir-nos de trabalhar, isso é um fato. Quanto mais armado e hypado você estiver, mais força terá para resistir ao inimigo.

Uma última dica desta sessão: não compartilhe nada antes de terminar de escrever. Não busque opinião de ninguém. Não deixe que uma IA avalie seu trabalho. Produza, revise e finalize, antes de sair do seu mundo interior.

Confie em mim, seu cérebro é um sabotador experiente, e usará qualquer interferência externa para abortar sua capacidade criativa. Seja um mago recluso.

 O preparo espiritual: puna-se e se presenteie, parte de você responde ao mais primitivo dos instintos.

Dê-se a regalia de deleitar-se em um trabalho concluído, em um belo parágrafo.

Se permita alegrar quando as ideias deixarem sua cabeça e materializarem-se de forma robusta, mesmo que imperfeita, em escrita.

Crie de forma organizada, separe 15 minutos por dia, escreva todos os dias nesse mesmo horário. Quanto mais cedo puder, melhor, se for assim que acordar, melhor ainda.

Estes são os ideais que dão os melhores resultados, faça o que for possível. Se você só conseguir escrever uma hora no sábado de manhã, maravilhoso, faça o que conseguir se forçar a fazer.

Abandone e ignore qualquer medo ou insegurança. Escreve mal, não faça sentido, erre e seja um analfabeto, sem medo. Tudo pode ser consertado depois, mas a covardia é um vício que se entranha e nos devora por dentro.

Não alimente a serpente que te ofende repetidamente no seu momento mais vulnerável. Eu sempre acho que o que escrevi é ruim, inclusive este amálgama pretencioso e professoral de dicas incumpríveis que você lê agora.

Faça, e ignore suas opiniões.

Escreva sozinho, sem discord, sem observadores, não mande nada para ninguém. Deixe para revisar e estruturar tabelas, encontros e tópicos em um segundo momento.

Reconheça que sua inspiração não é fruto genial de sua mente incomparável, ela é um monstro feito de retalhos da sua vida, das pessoas com quem se relacionou, de experiências nas quais prestou atenção e acontecimentos que foram registrados no subconsciente.

Pouco daquilo é seu, dessa voz que fala dentro do seu crânio. Aí vivem muitos, mas só você pode usar a vontade para traduzir as vozes na sua cabeça em trabalho, com esforço e sofrimento, em texto.

Dê graças a quem quer que te ajude, nessa tarefa improvável, e sempre solicite força e perseverança. No meu caso, agradeço em orações e me preparo rezando. Mas, caso não creia, apenas saiba que sua consciência não é suficiente para atingir o sucesso, ela é apenas necessária, e ela terá que superar difíceis obstáculos.

 Praticidades e estudos complementares: a parte divertida, e que não deve ser a prioridade.

O design de aventuras, práticas de preparação e ferramentas auxiliares, como os aplicativos inkarnate e dungeonscrawl, avançaram em quantidade e qualidade nas décadas de existência do RPG moderno.

Formas de transmitir informação, com concisão, clareza e alta utilidade, foram criadas e aperfeiçoadas pela comunidade e muitas destas práticas são maravilhosas. A minha opinião é que começar as utilizando desde o início da caminhada enquanto mestre é contraproducente.

Um autor deve encontrar sua voz antes de escorar-se na técnica.

Um bom conhecimento de si, domínio da fluência de trabalho, e uma quantidade razoável de aventuras, mundos e masmorras criadas, algo entre 3 a 5 feitas com esmero e seguindo método, é um acervo saudável, para que então possamos lançar mão de facilitadores para aprimorar a fluência da sua criação.

Se construa e descubra antes de aperfeiçoar. Me parece óbvio, mas o costume atual é o do instantâneo, o do auxiliado e pasteurizado. Importamos o que parece chamar atenção na caixa de eco dos influencers e do mercado americano e esquecemos de desenvolver o nosso.

O que já existe não precisa acontecer novamente.

Leia, não ouça falar, tenha a sua opinião crítica e busque consumir o que existia e foi consagrado antes da era da internet. Essa é uma dica de velho, mas acredito ser um bom caminho.

O que é amado e hoje em dia não gera lucro para ninguém, provavelmente é muito bom.

Há produtos atuais de qualidade, mas o teste do tempo dirá quem foi inovador, ou quem só enlatou a ideia de uma experiência, entregando pouco de invenção, e muito de estética.

É fácil perder-se entre vídeos, noite adentro, ou gastar o pouco que temos em inúmeros livros, completar pastas virtuais com terabytes de pdfs.

Lembrem-se, mais vale um hora de leitura do que uma hora de pessoas dando opiniões sobre um produto. E muito mais valioso é aquilo que você descobre por si, vagando em uma missão solitária pelos inúmeros volumes disponíveis.

Acredite em mim: youtubers e editoras não acreditam que o sucesso mora no conhecimento ou senso crítico, diretamente.

Eles ganham por engajamento, e a novidade engaja muito.

Pergunte-se: será que jogaram tudo isso que nos apresentam? Será que esse livro foi testado em mesa, ou produzido e traduzido para preencher a voracidade do público por conteúdo?

Um mercado que vende livros antes mesmo deles estarem prontos está vendendo qualidade de diagramação, conteúdo e inventividade, ou uma estética e uma dose de endorfina criada pelo aplacamento temporário da sua vontade de não ficar de fora dessa “oportunidade” criada artificialmente?

Seja um teorista da conspiração, seu bolso e processo criativo agradecerão.

Por fim, leia o que veio do início da quinta edição para trás.

No meu gosto: quanto mais antigo melhor. Gary Gygax, Janelle Jequays, Tom Moldvay, David Cook são alguns dos nomes que vêm à mente.

Com eles aprenda a criar. Com produtos atuais, aprenda a dispor as informações. Transforme cada aventura sua em algo estruturado, crie sua fórmula.

O que proponho nesta última parte é simples de compreender, mas levará uma vida para colocar em prática: procure ser um criador, não um consumidor.

Então termine a leitura deste ensaio da forma com que eu o idealizei: saia daqui e vá criar. Enfrente a página em branco e derrame-se sobre ela. Pense em um desafio, um ponto de entrada nesse mundo e o povoe com suas experiências, traduzindo o que elas simbolizam através de personagens, adversários, problemas e situações.

Se você chegou até aqui e ainda não escreveu, entendeu tudo… e não aprendeu nada. Agora me deixe em paz, que preciso escrever!

por Victor Troiani

Comentários